Entre botecos e igrejas, o Sarau é a questão.

September 29, 2018

Para quem desconhece, infelizmente, poucas são as opções acolhedoras nas noites

periféricas das grandes metrópoles do Brasil. Podíamos ocupar as escolas fechadas pós cumprimento do dever ou ter Centros Culturais abertos propiciando o desenvolvimento humano com rodas de leitura, contação de histórias, cinemas com filmes divertidos para as crianças ou por esperança, filmes cabeças para romper as barreiras do indivíduo, visita de pensadores e rodas filosóficas, apresentações musicais, espaço para exibições de obras autorais, danças de vários estilos e jogos esportivos, mas... faltam muitos incentivos e com todo o respeito me cabe, por muitas vezes nesses períodos noturnos dessas regiões mais afastadas dos grandes polos, sobram apenas os resistentes Botecos e as múltiplas Igrejas evangélicas.

 

Essa falta de opções intelectuais não ocorre por desinteresse da população nesse tipo de atração, mas sim pelo descaso dos nossos governantes, e digo isso com muita propriedade, pois eu poderia até adentrar esse tema citando os diversos problemas de infraestrutura e falta de amparo sócio educacional que ocorrem, mas prefiro voltar ao foco inicial e ressaltar orgulhosamente que a própria população está indo aos enfrentamentos para se nutrir de muito conhecimento, propiciando voz para o despertar artístico da comunidade que semeia e brota com muita verdade.

 

Bom... antes de falar dos Saraus e já que citei a Igreja e o Boteco, vou falar um pouco desse âmbito de fé e diversão, pois tendo como base que as Igrejas evangélicas foram originadas em terras alemãs no começo do século XV pela falta de convergência com a Igreja Católica, ao chegar em terras brasileiras não poderia ser diferente, deu-se essa abertura para que o homem rompesse esses padrões das grandes catedrais e trouxesse para perto si os grandes seres celestiais. Em espaços modestos, algumas vezes na adaptação de uma garagem, as igrejas surgem com a cooperação de seus fiéis que veem nelas a esperança da salvação no reino de deus, e depositam a sua fé na coragem dos Pastores que disseminam as linhas de condutas conforme a sua compreensão bíblica. Já os Botecos, longe do bom Deus pregado na religião, tenho a mesma consideração, pois as dificuldades do mercado de trabalho, fazem surgir esse tipo de comércio que se viabilizam muitas vezes também no espaço de uma garagem e requerem um baixo investimento inicial, possibilitando o proprietário garantir o provendo da sua família no mercado informal. 

 

Vida digna e está tudo certo, apesar de missões opostas, o a igreja e o Boteco por muitas vezes estão localizados um de frente para o outro e podemos considerar que há similaridade entre estes, pois além das portas abertas de forma simpática e democrática, ambos fazem a vez do assistente social, suprindo a carência daqueles frequentadores e se tornando pontos de referência para o encontro de amigos que compartilham do mesmo modo de vida, para o bate-papo em família, para escapar relatos, para intermediar fatos, enfim, muitos se entrelaçam à esses ambientes expatriados no bom convívio com o “Dono do bar” e o “Pastor”.

 

Às vezes as emoções extravasam e vou retratar com a boa rima muito que já presenciei:

 

 

O jogo de dominó,

o carteado e o bozó,

são alguns dos entretenimentos.

Enquanto o irmão grita oferecendo

ao deus o seu provento,
no bar, o ovo cor-de-rosa serve de alimento.

 

O Pastor lhe dá a salvação,

mas quem grita de emoção

é o eufórico jogador

se achando o merecedor:

"TRUCO, 6, LADRÃO",

o pastor mais forte grita, "ALELUIA IRMÃO".

 

E nessa disputa de quem fala mais alto
muito acontece e pauto.

A dama acaba com a graça

na porta do bar, brava

que briga com seu marido

e não meter a colher é acordo mantido!

 

Berra em explosão

com palavras de ordenação,

esse dom que Deus lhe deste,

não é pastora, é esposa do cabra da peste

e até o Pastor observa e silencia a sua prece,

pois Maria grita mais alto e o chão estremece:

 

JOSEMAR, SEU SATANÁS....

SAIA JÁ DESSE BAR, POIS HORAS FAZ

Vá pra casa cuidar de sua família,

ou atravesse a rua para ler a Bíblia,

 

Vou dar uma ‘tarracada’ na cabeça desse valente

para ver se vira crente ou gente.

Marido assim, não aguento mais não
vou juntar as minhas malas e voltar pro meu sertão.

O fervo das questões, isso também acontece nas melhores famílias e brinco com a poesia para quebrar o clima, certo de que o excesso do álcool e da jogatina como forma de descontração ou as várias regras da religião, não é para qualquer um, então o negócio é andar na linha como todo bom cidadão, mas pra cá do que pra lá, pouco penso para manter a elegância e sem perder a esperança.. 


Assim, para aqueles que não se encontram dentro desses dois contextos e possuem muita dessa disposição vital, carecem de um direcionamento para queimar toda a energia e produzir algo de bom para a sociedade, e é aí que entra o Sarau! 

 

Normalmente um grupo de amigos deslumbram as possibilidades de ter um evento na própria comunidade para atrair o público, descontrair, refletir e mostrar a sua arte, então se pede um microfone emprestado para o camarada da igreja, agradece o espaço cedido pelo Dono do bar que acreditou na brincadeira e a gente agradece, pois da chuva protege e o clima converge, logo começam a chegar o povo com perfis variados, o senhor, o garoto, a garota e a senhora... muitos começam a descobrir que é possível materializar a criatividade e colocar para fora toda inspiração que habita dentro de si. E aquele que era só um vizinho, percebeu-se um poeta, quem era o seu melhor amigo, hoje faz seresta, a dona de casa encena a grande mulher que é e denuncia o abuso, até o dono do bar arrisca um discursos. 

 

Apesar da história dizer que os saraus surgiram nas noites francesas, ao meu ver, os nossos ancestrais já faziam arte em volta da fogueira, certo que a prática da ‘arte

do encontro” foi acalantada durante os anos de chumbo, dito, a ditadura militar no Brasil, mas graças ao bom Deus, hoje podemos nos encontrar para relaxar, filosofar e nos nutrir de muita arte tendo toda a liberdade do mundo. Que as metáforas nunca mais sejam necessárias para ludibriar a lei dos homens, para saltar a censura, e viva a liberdade!

 

Nesse início de século, tendo como referência os grandes veteranos, tais como Cooperifa e Sarau do Binho em SP, houve uma ascensão dos Saraus nessas regiões periféricas se tornando uma ótima alternativa para preencher o intelecto, provocar a metamorfose em novos artistas e propor um pouco de alegria a esse povo que tanto sofre. Até há o incentivo financeiro de algumas prefeituras com leis de fomento, mas que não querem se envolver com a parte dura de manter os Saraus em funcionamento. Muito trabalho dá, manter a regularidade semanal, mensal, a montagem e desmontagem da infraestrutura, ações com as crianças em escolas, ações em presídios com a intenção de resgatar o melhor da essência do ser humano e ressocializa-lo, o cuidado em não incomodar os vizinhos que residem próximo ao Sarau e tudo isso fica nas costas dos organizadores que são amantes da arte e encabeçam essa missão com muito prazer e amor.

 

E cada Sarau tem as suas propriedades, diga-se a sua graça, vaidade, onde o “Silêncio é uma prece”, muitos têm listas de nomes para que as apresentações ocorram de forma organizada e tem vezes que sobram Poetas, um outro tem lista rebuscada e seleciona os artistas através de um retrato tirado em uma máquina “polaroid” em época de android, outro só encerra quando o último artista fala e assim vai. No caso do Sarau do Vinil, que fica na Zona Sul de São Paulo, próximo a Vila Joaniza e é onde eu compareço com maior frequência, o tema é “Mentes e Microfones abertos”. Os próprios artistas sentem o seu momento e se revezam na maior harmonia. Nesse mês de setembro/2018 tive a oportunidade de participar do aniversário de 7 anos e se valendo do nome, a noite inicia com o público escolhendo as suas canções na caixa que contém uma centena de discos de vinis dos mais variados estilos, em paralelo se aprecia as exposições de artistas plásticos ou fotógrafos até a esperada abertura do microfone que anuncia o lançamento do dia, dá-se voz para esse artista e na sequência rolam muitas poesias, cantos,

 

contestações, manifestações, encenações que vão até altas horas, tendo o encerramento com um DJ que anima a festa ao seu estilo. Por lá já passaram grandes nomes desse cenário dos tocas discos, assim como o KL Jay dos Racionais MCs que dispensa comentários, o Erik Jay do programa televisivo “Manos e Minas” e que foi o primeiro brasileiro a conquistar o campeonato da ‘DMC World’, e o renomado DJ Patife, que morou durante a  sua infância na região e conquistou o mundo mostrando que o Brasil também produz um bom “drum’n’bass”.

 

Assim o povo vai se virando por si mesmo sem depender efetivamente do governo. Vão se animando, se fortalecendo, quebrando paradigmas, desconstruindo enigmas, findando preconceito daqueles que se sentem melhores por viver outra realidade financeira e mostrando a igualdade intelectual àqueles que os vêem como inferiores nessa vida alheia. O que acontece nos Saraus periféricos, é simplesmente uma "mostra" do enriquecimento intelectual que amedronta muita gente, quebrando amarras e libertando a mente de uma sentença imposta por uma cultura capitalista de desigualdade extrema. É um sopro de vida para aqueles que foram salvos e empregaram os seus talentos em prol da arte.

Viva os Saraus, viva as igrejas e botecos, viva os terreiros, viva a senhora benzedeira que por muito tempo cuidou da saúde da comunidade, viva a cadeira na calçada para a prosa com os amigos, viva os locais periféricos que só não são melhores devido a ausência de um poder público justo, e não falo de assistencialismo, falo de capacitação, inclusão,  organização, saneamento básico e instrução! 

 

Saraus, procure um próximo de você ou cruze a cidade para desbravar a possibilidades!

 

 

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